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Me, Myself And I



Alô criançada, o Bozo chegou.

 

Não lembro exatamente em que ano isso aconteceu. Eu devia ter uns 09 anos, vai. Chutando alto. Mas lembro da expectativa, dos preparativos, da empolgação e das cenas mais bizarras da nossa ida ao programa do Bozo.

 

Como qualquer criança que se preze – em termos de mulher, é claro - o importante era saber com que roupa ir ao programa, até porque, a gente ia aparecer na TV e ninguém podia fazer feio numa hora dessas. Não lembro do meu figurino, mas o da Danni era inesquecível: uma blusa azul, um shorts laranja e um tamanco de madeira que dava vontade de bater com ele na cabeça dela, de tão barulhento que o treco era. E a bicha era seca, magrela e tinha – tem até hoje – uma risada extremamente alta.

 

Aliás, um dia antes do tão esperado evento, a Hilda – senhora mãe da Danni – estava com uma barriga imensa de nove meses, prestes a parir o Danni. De tudo isso, duas coisas que a minha mãe lembra e ri até hoje: a Danni chorando na janela porque a Hilda ia para a maternidade e não poderia ajudá-la com os preparativos e de uma criança do prédio - que é melhor não citar o nome - comentando que tinha até tomado banho e cortado as unhas para ver o palhaço. Fato inédito, daí...

 

E eis que chega o dia. Dormimos mal a noite toda, acordamos cedo, colocamos uma roupa legal e lá vamos nós, todos juntos cantando “Motorista, motorista, olha a pista, não é de borracha...”. O Studio do SBT era na Vila Guilherme. Da escola até lá, o trajeto era de no máximo 30 minutos. Para nós, parecia uma longa viagem ao mundo encantado da fantasia.

 

Eu só queria uma coisa: ver o Bozo! Pouco me importava quem ia jogar a batalha naval ou se o cavalo malhado venceria a corrida. Sem contar que o calor no Studio era infernal. Durante todo o tempo que ficamos lá só ganhamos água e um danoninho. Programa de auditório é um porre. É um tal de corta, volta, grava, apaga a luz, fulano não veio etc, etc. Até que uma hora eu escuto: Atenção, o Bozo terminou de se arrumar e já vai entrar. Nego, eu nem esperei a dita terminar as orientações, saí do meu lugar e fui correndo pro corredor de acesso.

 

Lá vem a criatura, com uma roupa surreal, um sapato gigante, um nariz de bola, aquele cabelo vermelho gritante, cercado de crianças berrando, umas querendo descobrir o que tinha embaixo da roupa dele. Porque para nós, claro, ele não era um homem. Era o Bozo. Meu primeiro pensamento foi: Meu Deus, a cabeça dele é muito maior do que eu imaginava. Eu nunca tinha visto uma coisa tão medonha na minha frente.

 

Foi um misto de alegria com indignação, parecia que eu estava vendo um ser inanimado. Tomei bronca porque saí do meu lugar e voltei a ficar ao lado da Danni, que aos berros, chacoalhando o cabelo e batendo muito o tamanco de madeira no chão, expressava toda a sua vontade de participar de alguma brincadeira. No fim, quem ganhou a Caloi Ceci com cestinha branca foi a Lilian, porque ela era a menina mais linda do prédio, só pode ser. Depois de um período longo, com muitos berros, uma fome tamanha, uma vontade imensa de fazer xixi e sem poder ao menos dar uma bitoca no nariz do Bozo, fui para casa.

 

Com o passar dos anos é que eu descobri que a Vovó Mafalda era homem – e pai da outra doida lá – que o Bozo, na verdade, era representado por três atores e um deles beeeeeem chapado, diga-se de passagem. Hoje, infelizmente, não existe programa infantil bacana e eu aposto que todos com um pouco de juízo e mais de 25 anos, sabe cantar a música de abertura. E, para não perder o encanto, de vez em quando eu ainda respondo quando alguém pergunta: Que horas são? Cinco e sessenta...

 

Beijos, Adri

Música – Portishead – Fun for me



Escrito por Drikaninha às 16:01
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